quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CRÓNICA DE ARGEL

Apesar de a Argélia não ser um país de turismo nem estar minimamente preparada para tal, ousei passar uns dias por aquelas bandas.

Após a realização das formalidades legais, lá cruzei os ares e, em menos de duas horas, estava aterrando no aeroporto que serve a imensa metrópole em que se transformou a capital argelina. 
Já por lá tinha passado uma dezena de vezes no início do actual milénio, quando piloto de aviões “charters” ajudei a transportar os peregrinos que se dirigiam a Meca e seu retorno. Operação que durou seis semanas, período em que apenas consegui conhecer o percurso do aeroporto para o hotel, já que se vivia o pós guerra civil e o hotel estava rodeado de polícias armados de metralhadora…
Apenas em Orão consegui passear um pouco pelo centro.
Hoje os vestígios da guerra civil estão ainda longe de terem desaparecido, mas já se consegue andar com um grau de segurança razoável, em quase todo o lado.

O actual território argelino (2.381.741 Km2) que, após a divisão do Sudão passou a constituir o maior país do continente africano, agora com cerca de 40 milhões de almas, foi fruto de passagem e fixação de numerosos povos após o fim do Império Romano do Ocidente em 476, para não irmos mais atrás. 
Hoje em dia a população é uma amálgama de descendentes dos povos romanizados, berberes, fenícios, númidas, bizantinos, vândalos, árabes, otomanos, etc., e algumas comunidades de judeus oriundos da Palestina.

Desde 1830, o território foi ocupado pela França, em grande parte a fim de neutralizarem a pirataria oriunda dos seus portos, que marcava presença no Mediterrâneo e chegou a ameaçar, não poucas vezes, o território nacional português.

A partir daí a França passou a considerar a Argélia como uma extensão “natural” do seu próprio território, colonizou- a sem, no entanto, darem a cidadania francesa aos autóctones. Mesmo depois destes terem combatido pela França na I e II Guerras Mundiais.

Foi por causa de promessas não cumpridas de “autonomia” após o II conflito à escala mundial e do alastramento das ideias terceiro - mundistas e anticolonialistas que a Conferência de Bandung, em 1955, exponenciou, que surgiu a Frente de Libertação Nacional (FLN), a qual veio a encetar uma luta armada pela independência e contra as autoridades de Paris, os colonos franceses, italianos, espanhóis e malteses que lá habitavam (cerca de um milhão) e os autóctones que defendiam o “statuos quo”.  
A luta foi feroz e ambas as partes envolveram-se seriamente na guerra a qual ao fim de oito anos, pendia para o lado francês.

Porém, os políticos em Paris, com o General de Gaulle à cabeça, acabaram por negociar com a FLN, levando à independência do novo país, em 3 de Julho de 1962.
A FLN tinha uma matriz marxista e assim se manteve até recentemente, principalmente durante os consulados dos presidentes Ben Bella e Boumedienne, que alinharam com o bloco soviético enquanto durou a Guerra-Fria.

O ressentimento relativamente aos franceses mantém-se até hoje, embora comece a haver um consenso que depois daqueles terem partido, pouco ter sido feito em prol do desenvolvimento do país…

Para além das ideias comunistas serem relapsas a votos ou a outras demonstrações do foro democrático, estas tão pouco fazem escola em todas as populações islamizadas do mundo inteiro.
Na Argélia não é diferente e, por norma, o detentor do Poder está sempre sentado em cima de um bom espalho de baionetas.
Quando a FLN sentiu a usura do tempo que levava de Poder, foi lentamente “subvertida” pelos adeptos mais fervorosos da “pureza do Alcorão” e, numas surpreendentes eleições, em 1989, tornou-se evidente que após a 1ª volta, a Frente Islâmica de Salvação (FIS) iria ganhar.

Temendo o pior a FLN, no governo, cancelou as eleições, apoiada nas Forças Armadas e manteve-se no Poder, com o silêncio cúmplice do Ocidente, que estava a ver as coisas mal paradas, por aquelas paragens…
Ora tal facto deu origem a uma guerra civil que durou entre 1992 e 2002, quando as diferentes forças da oposição se renderam.
E, como todas as guerras civis, não foi coisa bonita de se ver. O número de mortos é estimado entre 150 e 200.000.

Existem porém, ainda pequenas escaramuças em vários locais, nomeadamente por parte de um grupo dissidente intitulado Grupo Salafista para a Pregação e o Combate, que expressou o seu apoio à AL- Qaeda, em Outubro de 2003.
Sobretudo a partir das eleições de 1999, a ideologia marxista esmoreceu, o pragmatismo económico prevalece e os militares continuam a ser o fiel da balança.

O Presidente e homem forte do regime, desde então, Abdelaziz Bouteflika – ele próprio um antigo guerrilheiro, que nunca foi militar – eleito pela quarta vez, em 2014, está porém muito doente pelo que os tempos mais próximos serão de alguma incógnita política e social. 

Por toda a cidade de Argel e mesmo fora das cidades, há um número impressionante de cortes nas estradas e barragens policiais, da “gendarmerie” ou militares mas, por norma, ninguém é incomodado.
Porém, tudo está pronto a funcionar em qualquer altura. 
A vida social decorre aparentemente sem tensões. De quando em vez ouve-se falar de uma operação militar ou policial que prendem ou matam “x” pessoas e ponto final.

*****

O ambiente da cidade é quente, húmido e envolvido em neblina.
O trânsito é caótico, mas raras são as buzinadelas e imprecações. Como toda a gente viola as regras, todos se sentem bem uns com os outros … E curiosamente topam-se poucos acidentes. 

A gasolina é ao preço da chuva e os transportes públicos são péssimos o que junto ao individualismo árabe resulta na chusma de veículos existentes. Parar o carro é um desespero, pois parques de estacionamento são ainda, uma ideia futurista.

O caos do trânsito só é comparável ao caos da urbanização. De facto tudo o que cai fora da traça deixada pelos franceses faz parecer os bairros suburbanos de Lisboa e Porto como zonas apetecíveis para viver.

Tal deve-se em parte ao caos gerado pela guerra civil (algo parecido ao que por cá se passou no “PREC”), e ultimamente a grande parte da construção civil – absolutamente necessária pelo “boom” demográfico e degradação dos bairros antigos – ter sido entregue a empresas chinesas, cuja falta de qualidade é universalmente reconhecida. Além disso os chineses também não se conseguem integrar com ninguém, coisa que os portugueses estão fartos de saber desde que por lá andaram no recuado ano de 1513…

Foi justamente pelo bairro originário e mais antigo da cidade, que a minha visita começou, a Casbah!

A Casbah é património mundial da Unesco mas ninguém desta prestimosa organização alguma vez lá deve ter metido os cotos, pois a dita cuja não obedece aos requisitos mínimos para tal distinção.
Imaginem Alfama multiplicada por três, mas onde a miséria domina; metade dos edifícios está em ruínas; o lixo é omnipresente; o cheiro requer avidamente uma máscara anti - gás e até os gatos têm mau aspecto!
Consta que por lá sobrevivem entre 30 a 35.000 pessoas.
E, no entanto, como seria interessante que tal bairro imenso fosse recuperado, pois a sua traça é única, a antiguidade é venerável e está pejado de arquitectura, símbolos, recantos, locais de artesanato, etc., assaz castiços, merecendo sobreviver ao desgaste do tempo e ao desvario dos homens!

Aproveito a oportunidade para afirmar o que mais me desgostou no país: o lixo. 
A imagem do lixo, não é digna de uma civilização que tem séculos e nada há, no século XXI (da Era Cristã) - nem economia nem finanças por mais medíocres que sejam - que a justifiquem. E a sua resolução até podia contribuir para a diminuição do desemprego existente…
E de facto a população vive um estádio de subsídio dependência.
A economia do país está baseada no petróleo e no gás natural e a balança do deve e do haver, está muito (demasiado) dependente da bolsa de preços destes produtos. 
Os sucessivos governos têm comprado a paz social e, até, a integração e pacificação dos antigos insurgentes, à base de benefícios fiscais e sociais e o do subsídio artificial dos bens essenciais. Ou seja mantém-se toda a gente acima do limiar da sobrevivência, sem fome e com acesso a bens de primeira necessidade, saúde (que é medíocre), habitação, escola, etc.
Ao mesmo tempo que à elite mandante não falta nada…
Não há nada de novo debaixo do Sol.

Ora este “status quo” está intimamente dependente dos preços do gás e do petróleo. Já que o terceiro maior (ou o 1º?) produto exportado pela Argélia são os seus filhos. O que funciona também como válvula de escape. 
Não se vê todavia, ninguém a pedir nas ruas – um aspecto positivo a salientar – a não ser imigrantes sobretudo da África Subsaariana, que deambulam pelas ruas de algumas vilas e cidades à espera de oportunidade para atravessarem o Mediterrâneo. Hipótese até agora não incentivada pelo governo argelino, que não raras vezes os deporta para a origem.
Até quando tal estado de coisas se irá manter é motivo de especulação…
A condição da mulher é vária, como acontece em todos os países islamizados. Nem tudo é igual em todo o lado. 
Na rua a maioria das mulheres anda de véu, poucas completamente tapadas e algumas marcham de cabelos ao vento. Não se fuma nas ruas, mas em locais mais “europeizados” as mulheres fumam. O mesmo se passa com o consumo de álcool. A mulher também tem acesso normal ao trabalho. As “restrições” são maiores nas zonas rurais.

A organização religiosa, as mesquitas e tudo o que lá se passa, está muito controlado pelo Estado, numa espécie de reacção idêntica ao provérbio português de “casa arrombada, trancas à porta”…
As pessoas não são antipáticas e relacionam-se facilmente. 
Os islamizados, nomeadamente de origem árabe, gostam muito de falar e discutir. Qualquer problema gera uma fala acalorada e ao observador incauto parece que quando discutem, estão prestes a entrar em duelo!
Argel, agora com cerca de 3,5 milhões de habitantes, é uma cidade extraordinariamente bem situada, que aproveitou muito bem a geografia.
Tem alguns monumentos antigos bem conservados – embora haja imenso a fazer quanto ao património – palácios, museus, hotéis, ruínas romanas, etc., de que destaco o Museu/Palácio do Bardo; o Palácio des Rais e o seu centro de arte e cultura; o Palácio de Mustapha Pacha; o Museu Nacional des Beaux Arts; o Museu Nacional de Artes e Tradições Populares; o museu Nacional das Antiguidades e a Catedral de Nossa Senhora de África, verdadeiro templo do Cristianismo naquelas paragens, que se espera continue bem tratada e em actividade, apesar de se estimar que apenas 1% da população seja cristã.

O Museu Militar estava fechado e em seu lugar foi visitado o Museu da Revolução sito no incontornável monumento aos mártires, que domina a paisagem da cidade o que agora vai ter que partilhar com a segunda maior mesquita do mundo, em construção acelerada.
Sem embargo, são muito pouco visitados pela população - excepção quanto ao museu da revolução, no qual o sentimento anti francês se mantém acesso e não deixa de ser cultivado.

Alguns hotéis são de qualidade internacional elevada de que destaco o excepcional hotel El Djasair, em estilo mourisco, ricamente decorado e com amplos e agradáveis terraços e jardins, bem ao estilo das “mil e uma noites”. De realçar que foi neste hotel onde decorreu a reunião que preparou o desembarque das tropas aliadas, na Sicília, em 1943, e onde estiveram instalados os principais intervenientes (Churchill, Eisenhower, Montgomery, M. Taylor, etc.).
O mesmo se pode dizer de alguns restaurantes. Aliás a degustação de especialidades da terra foi uma constante e a experiência agradável.

As praias estão algo poluídas e pejadas de gente, mas o giro do horizonte revela uma realidade muito diferente da nossa (uns demasiado vestidos, eles; outros demasiado nús, nós, por ex.…) Não quer dizer que seja pior nem melhor, mas é seguramente diferente e quer dizer coisas diferentes.
Provavelmente o meio - termo tornaria a situação mais sensata e equilibrada para ambas as realidades…

Uma palavra para Bougie, que visitámos.
Bougie é uma cidade portuária, com cerca de 200.000 habitantes, situada a 250 Km a Oeste de Argel, onde se chega depois de atravessar as montanhas da província da Cabília, onde ainda se podem observar macacos vivendo em liberdade.

A curiosidade de ir a Bougie prendia-se com o facto de lá ter vivido e morrido um antigo Presidente da República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes, entre 1931 e 1941. A sua figura, controversa, ficou imortalizada num filme recente, de um realizador português, rodado em grande parte na cidade e produção luso-argelina.

Teixeira Gomes nasceu em Portimão, em 1860, no seio de uma família abastada de lavradores. Foi diplomata, escritor e acabou eleito para PR, em 6 de Outubro de 1923, no período mais agitado da I República.

Frustrado com a situação política, económica e social do País, resignou ao cargo, em 11 de Dezembro de 1925 e, abandonando tudo, embarcou seis dias depois no paquete grego “Zeus” (que deu o nome ao filme) e saiu no primeiro porto que este escalou, no Norte de África.

Em 1931 entrou em Bougie, instalando-se no quarto nº 13 do Hotel L’Etoile, e agradando-se do local nunca mais de lá saíu, falecendo a 18 de Outubro de 1941, ficando sepultado no cemitério local. A pedido da família os seus restos mortais regressaram à terra natal, em 1950.
Bougie é de facto uma cidade bonita e os seus arredores são de uma grande beleza natural.
O PR Jorge Sampaio na sua última visita ao exterior foi à cidade e descerrou um busto do ilustre auto exilado, numa praça perto do citado hotel.
E foi deste modo que também caminhei pelos locais que este nosso antepassado calcorreou.

Esta deslocação permitiu ainda, conhecer um pouco do “campo” argelino, o que foi complementado por uma visita à antiga cidade romana de Tipaza, onde há muito para ser feito em termos turísticos e onde se descobre que a Argélia é um pequeno paraíso para os colecionadores de antiguidades.
Na volta deu para ver um raríssimo monumento que encerra alguns mistérios: “A Tombe de la Critiéne”, uma espécie de “pirâmide” enorme em forma de cone, datado do Século I. 

*****

Portugal, pela sua situação geopolítica tem que olhar para a Argélia com especial cuidado e interesse. 
Em primeiro lugar em termos de segurança, a Argélia está dentro da nossa área regional de defesa avançada, já que tudo o que possa acontecer no Mediterrâneo Ocidental nos deve interessar e pode representar uma potencial ameaça.

E é preciso não esquecer que toda a área do Magreb está cheia de tensões e conflitos potenciais. A vizinhança é má entre todos (as fronteiras entre Marrocos e a Argélia e esta com a Líbia - que está sem Estado - estão, hoje em dia, fechadas); existe o conflito entre Marrocos, a Argélia e o antigo Sahara Espanhol; a situação na Tunísia é de grande desestabilização e todo o arco da África subsariana é uma fonte de miséria, guerras, conflitos, quase perenes. A que teremos que acrescentar o conflito larvar, entre Marrocos e a Espanha por causa dos enclaves espanhóis na costa marroquina.
Não se pode olvidar, ainda, o grande interesse estratégico que os vizinhos espanhóis dão ao eixo “Canárias, Gibraltar, Baleares.

E o Arquipélago da Madeira ali tão perto…

D. João VI assinou um tratado de Paz e Amizade, com o Bei de Argel, em 14 de Junho de 1813, que provou não ter funcionado mal. 
Nada se passou de relevante para nós enquanto a Argélia foi francesa, mas a situação mudou de figura quando os governos argelinos saídos da independência se declararam inimigos do Estado Português, fizeram má vizinhança, tornaram-se inimigos políticos e ajudaram activamente os movimentos subversivos nos territórios portugueses em África. Nesta campanha participaram vários portugueses de má memória, tendo tido a ocasião de estar à porta e fotografar um dos locais onde vomitavam a guerra psicológica contra quem defendia o torrão pátrio.

Enfim, um dia a História os julgará, já que os contemporâneos não foram capazes de o fazer.
Após a mudança de regime em Portugal as relações foram-se normalizando e encetou-se um tímido comércio que foi ganhando alguma expressão sobretudo com a importação de gás argelino, que uma decisão estratégica errada, fez entrar por um gasoduto terrestre vindo de Sevilha, decisão corrigida mais tarde, com a construção do terminal de gás liquefeito, de Sines e das cavernas/armazém, em Pombal. 

No entanto a inexistência de um único navio mercante que possa transportar gás, com o pavilhão nacional, continua a ser uma vulnerabilidade grave para o país.

Na actualidade temos com a Argélia boas relações, tendo sido assinado, em Argel, um Tratado de Amizade e Cooperação, em 8 de Janeiro de 2005.

As trocas comerciais aumentaram bastante constituindo-se a Argélia como 18º fornecedor de Portugal e 13º cliente, números de 2015.

O comércio de bens com a Argélia, nesse mesmo ano, representou 0,8% das exportações (596 milhões de euros) e 1% das importações (715.9 milhões de euros) portuguesas.

As importações portuguesas são basicamente de combustíveis minerais (5º lugar no ranking dos fornecedores, representando uma quota de 6,47%), químicos, peles e couros, madeira e cortiça e metais comuns. As exportações são constituídas por metais comuns, máquinas e aparelhos, minerais e minérios, pasta de papel, plásticos e borracha, veículos e outro material de transporte e muitos outros materiais diversificados.

Já no campo dos serviços a balança comercial é favorável ao nosso país, já que exportamos, também números de 2015, 40,3 milhões de euros contra 20,1 de importações.

A expansão da economia argelina, que é o 17º produtor mundial de petróleo e o 9º na produção de gaz natural – o que junto representa cerca de 35% do PIB; 60% das receitas do Estado e 95% das exportações - aponta para uma diversificação à base da indústria petroquímica, agroalimentar, siderúrgica, automóvel, produção de alumínio, construção, obras públicas e turismo.

Estas são as principais oportunidades para as empresas nacionais.

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A participação nas organizações que acompanham a situação no Magreb continua a ser uma decisão acertada, por parte do Estado Português.

Estamos a falar do Grupo 5 + 5, que reúne os membros da União do Magreb Árabe (UMA), constituído por Marrocos, Mauritânia, Argélia, Tunísia e Líbia, formado em 1989 e cinco países do Sul da Europa, Portugal, Espanha, França Itália e Malta; a Conferência de Segurança e Cooperação no Mediterrâneo, ocorrida em Barcelona, em 1995 e tudo o que se lhes seguiu; a participação na Eurofor e na Euromarfor, organizações de defesa, no âmbito da UE, que englobam as Forças Armadas de Portugal, Espanha, França e Itália; até as ainda incipientes acções de cooperação técnico-militar, etc..

Sem embargo da nossa crítica e continuada falta de meios, vontade política e doutrina estratégica, limitar quase sempre a nossa acção, a “vermos passar os comboios”…

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Finalmente uma palavra para as Forças Armadas Argelinas.
Os seus efectivos rondam os 150.000 H, a que há que acrescentar outros tantos reservistas e 190.000 H de forças paramilitares. Existe serviço militar obrigatório para todos os jovens do sexo masculino, com a duração de um ano.

A maioria do material militar é russo (o aliado histórico após a independência) e têm o maior orçamento militar de África, o qual representa 4,3% do PIB (o valor português – constantemente sujeito a engenharias financeiras, não deve ultrapassar 1% e inclui a GNR…

Controlar e defender as enormes fronteiras argelinas (é contigua com Marrocos, a Mauritânia, o antigo Sahara Espanhol, o Mali, o Níger, a Tunísia e a Líbia), deve ser um imbróglio estratégico e transferir forças entre fronteiras constitui um pesadelo logístico, por ex.

Putin visitou Argel, em 2006 e vendeu um pacote de armamento no valor de 7.5 milhões de dólares, que incluía aviões Mig 29 SMT, Sukhoi SU 30 e aviões de treino Yak  130; helicópteros MI-24; misseis anti - carro AT13 e 14; 120 carros de combate T-90, duas fragatas A 200; duas Corvetas “Tiger”;dois submarinos SSK 236 (já possuíam 4 SSK 877K).

Os alemães venderam cerca de 1.000 viaturas blindadas de transporte de pessoal; duas fragatas Meko e seis helis Super Linx, e diferentes tipos de viaturas e espingardas automáticas.

É “curioso” notar que a Alemanha tem aumentado enormemente a venda de armas que produz, tendo só em 2014, exportado 1.823 milhões de euros, um aumento de 90% relativo ao ano anterior…

A Itália está a construir um navio polivalente logístico e a China é o mais recente fornecedor de armamento, contando já com três fragatas de 2800 toneladas.

Aliás existe alguma especulação sobre um eventual apoio chinês ao programa nuclear argelino, após a visita do Presidente Hu Jintao, em 2004, a Argel.

Existem duas instalações nucleares principais: o complexo nuclear de Draria, que inclui um reactor em Nur, e a Unidade de Desenvolvimento de Combustível Nuclear; e o complexo nuclear de Birine, que inclui um reactor em Es-Salem e a facilidade de teste de material e combustível nuclear.



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Em resumo, a Argélia é um país que se pretende afirmar no quadro regional onde está inserido; que tem uma noção de ter ameaças num raio de 360º, às suas fronteiras; que ainda sara as feridas da recente guerra civil; que pretende estabilizar o seu sistema político e a paz social, ao mesmo tempo que tenta relançar e diversificar a sua economia.

Ainda com uma indústria incipiente; idem para os serviços; uma agricultura cheia de lacunas (embora tenha umas frutas dulcíssimas e vegetais excelentes), mas com potencial de desenvolvimento e uma tecnologia média incipiente.

A demografia galopante e uma alta taxa de desemprego (cerca de 11%), sobretudo na juventude (30%).

Em qualquer destes campos estaria ao nosso alcance aproveitar não fora a descapitalização dos nossos bancos e empresas; a falta de grandes e médias empresas ou grupos de empresas – todas a serem vendidas ao desbarato. Resta ainda a entropia causada pela dificuldade de algumas leis existentes do lado argelino e interesses instalados que constrangem as modalidades de investimento.
Mas alguma valia e crédito o nome português já tem por aquelas paragens.

E uma legislação avisada que por lá existe, bom seria que fosse aqui copiada e implementada: a de não ser permitida a venda de terrenos a estrangeiros. Estes apenas podem “arrendar” terrenos ou infra-estruturas…

Mas isso só será possível quando houver nos organismos do Estado em Portugal, pessoas que se preocupem em defender, preservar e salvaguardar a terra que lhes serviu de berço.

Finalmente parece fundamental haver precaução, relativamente ao estabelecimento de fluxos migratórios e de emigração clandestina ou legal, que visem o nosso país. É que a França está submersa por eles e já não comporta mais; a Itália está a implodir e a Espanha lá chegará, só para ficarmos por aqui.

A pressão demográfica é terrível e para o deserto, a Sul, ninguém quer ir!

Os Tuaregues agradecem…

Pelo meio temos o terrorismo potencial e fortuito.

No aeroporto de Lisboa já acordaram para o problema, pois as medidas de segurança, não sendo ostensivas, são bem visíveis.

Enfim, gostei de ter visto tudo o que vi, embora não tenha apreciado tudo o que, por graça de Deus, me foi dado ver.

Inshallah e shukran!

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

EUROPA SEM EXÉRCITO NEM VONTADE PARA SE DEFENDER

Vamos ser tosquiados como cordeiros. E se não forem estes serão outros...

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Turkey Can Occupy Europe in 3 Days

              Gentilmente cedido por JAML e enviado por Carlos Varanda

segunda-feira, 31 de julho de 2017

APONTAMENTO RÁPIDO SOBRE FOGOS



APONTAMENTO RÁPIDO SOBRE FOGOS
30/07/17

                                                           “O Mal não deve ser imputado
                                                             apenas àqueles que o praticam,
                                                             mas também àqueles que pode-
                                                             riam tê-lo evitado e não o fizeram”.
                                                             Tucídides (460 – 396 AC).

    Relembremos: só há fogo se houver uma conjunção de três coisas, conhecidas pelo “triângulo do fogo”, a saber: um comburente, uma matéria combustível e uma fonte de ignição (ou calor).[1]
    Presumo que, por esta altura, autoridades politicas, policiais, bombeiros, até mesmo juízes, etc., já tenham noção disto.
    Ora o oxigénio (que actua como comburente) é um elemento contra o qual não se deve actuar; o combustível (neste caso a floresta, as casas, as pessoas, etc.) é justamente, o que se quer preservar e a acção que gera a ignição é o que se quer evitar.
    Desta equação simples de enunciar, mas complexa de resolver (embora também não convenha complica-la) se deve partir para a resolução do problema.
    Ora a conjugação simultânea das três variáveis do dito triângulo é extremamente difícil de ocorrer naturalmente (experimentem colocar umas folhas secas na varanda cobertas com um fundo de garrafa, ou uma lente, e esperem por uma ignição espontânea, para terem uma ideia da coisa) restando, deste modo, a mão humana para originar as catástrofes que nos causticam e castigam desde sempre, mas com especial fervor nas últimas quatro décadas!
    Dado que precisamos todos – animais e plantas – do oxigénio para a vida, convém preservá-lo a não ser quando, pontualmente, o suprimimos em espaço e tempo confinados, num ataque químico a um fogo, resta-nos actuar sobre a matéria combustível e as possíveis acções que geram a ignição.
    Para o “combustível” é apropriada a prevenção; para a ignição é conveniente o ataque apropriado e à bruta.
    Expliquemo-nos.
    Na questão da prevenção têm sido apontadas “paletes” de acções e soluções, por um conjunto alargado de especialistas. Mas como este âmbito custa dinheiro, trabalho pouco visível, nenhumas honrarias, ou oportunidades de negócio (e não rende votos), não tem havido a menor vontade política em as pôr em prática.
    Entre elas estão a repovoação do interior do País (esperemos que não com migrantes…); a escolha adequada das espécies vegetais a plantar; a limpeza da floresta; a construção de aceiros e áreas de segurança; vigilância q.b., leis apropriadas, etc..
    Pouco se tem feito neste âmbito o que, convenhamos, é de suspeitar…
    Finalmente existe a questão da ignição.
Ora já vimos que a ignição é difícil em termos naturais – e que dizer dos fogos durante a noite? - pelo que, para a sua origem, resta a mãozinha humana.[2] Mesmo tendo em conta a pressurosa ajuda do Director da Polícia Judiciária…
    Estas causas podem ser englobadas em dois âmbitos: no do descuido, descaso ou acidente – como é o caso de erros nas queimadas, negligência social quanto a beatas e fogueiras, etc. - e em motivação dolosa.
    A alienação mental tem sido o bode expiatório para desculpar uns e outros…
    Ora tem de haver maneira de detectar e prender os autores que estão na origem dos incêndios e julgá-los munidos de um “edifício” legal adequado e duro. Muito duro.
    A razão é simples: enquanto não se cortar a mão ao incendiário (e à mão que eventualmente esteja por detrás) o problema – que tem consequências catastróficas – não se resolve, mesmo fazendo a melhor prevenção do mundo![3]
    É preciso pois, investigar (até preventivamente) todas as pessoas/entidades a quem possa interessar esta calamidade pública, que não deixa de ser também uma forma de terrorismo.
    É que mesmo tendo fechado o hospital Júlio de Matos, não deve haver assim tantos malucos à solta…
    Resta a questão do ataque aos fogos.
    Dizem que há poucos meios; diria que talvez haja até demais. E estou convicto de que quanto mais dinheiro o Governo prometa que vai verter neste poço sem fundo, mais incêndios vai haver…
    Creio até que seria melhor pensar na adequação dos meios e nas entidades que os operam e refundar de alto abaixo o Serviço Nacional de Protecção Civil e seus componentes.
    Verão que ainda poupam meios, gastam menos e obtêm melhores resultados, embora seguramente, se tenha que deixar de fora alguns negócios para os amigos e se percam muitos lugares para a rapaziada dos Partidos…
    E, bem entendido, é necessário parar o massacre que a comunicação social, sobretudo as televisões, faz sobre este drama e restante acção deletéria.
    No fundo toda a gente opina, grita, discute – normalmente à frente de uma boa refeição, ou no intervalo da praia – mas quem verdadeiramente tem que decidir sobre estes assuntos e estabelecer uma estratégia com cabeça tronco e membros e continuada no tempo, aos costumes diz nada.
    A não ser palavras de circunstância repetidas ano após ano.
   Não há autoridade para nada e estão, ao que parece, democraticamente inibidos.
    O que será que os inibe?
    Porque se rendem à magnitude da tarefa?
    Porque não querem mexer em interesses instalados?
    Porque depois da Ministra Constança ter informado que já contabilizara 7795 (!) fogos desde o início do ano, isso ainda não lhes parece suficiente?
    Será que depois de ano após ano se prenderem cada vez mais incendiários (o que lhes acontece?), a PJ e a PGR serão tão incompetentes que nunca conseguiram estabelecer elos de relação causa/efeito?
    Até o Presidente da República – esse novo bombeiro voluntário dos afectos para todo o tipo de fogos - não encontrou nada melhor para afirmar, na visita que fez a Mação, do que “em ditadura lembro-me há 50 anos, era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem quais eram os contornos das tragédias porque não havia um MP autónomo, juízes independentes e comunicação social livre. Em Democracia há tudo isto”.
    Ou seja agora, felizmente sabe-se tudo e percebe-se tudo. Como se tem visto.
    Vão ver que a culpa dos 64 mortos (?) de Pedrógão Grande ainda vai ser atribuída ao Professor Salazar.


                         João José Brandão Ferreira
                               Oficial Piloto Aviador


[1] Recorda-se que combustível é tudo o que é susceptível de entrar em combustão; comburente, é todo o elemento que associado quimicamente ao combustível o faz entrar em combustão; calor é a temperatura de ignição (a temperatura acima da qual um combustível pode queimar).
[2] Não estamos a falar de excepções como são o enxofre e os metais alcalinos (ex. o potássio, o cálcio, o magnésio, etc.) que se inflamam directamente no estado sólido…
[3] Estivemos há pouco num país do Magreb, onde como se sabe, faz um calor dos diabos. Neste país existem extensas zonas de floresta em zonas montanhosas de difícil acesso. Não me parece que a prevenção seja grande coisa; há lixo por todo o lado; a população é socialmente bastante mais indisciplinada do que a nossa (e também fuma e faz picnics) e os meios de combate a incêndios são seguramente mais fracos que os nossos. Não há fogos? Há, mas consegui percorrer centenas de quilómetros e não me lembro de ter visto nenhuma área ardida.

terça-feira, 18 de julho de 2017

TANCOS, AS ARMAS E A ÓPERA BUFA



TANCOS, AS ARMAS E A ÓPERA BUFA
17/07/17


                                            “O Homem é o Homem e a sua circunstância”
                                                                  Ortega y Gasset


    A ópera continua…
    A única coisa que parece certa no meio de tudo o que se passou é o facto das autoridades portuguesas – sejam elas do âmbito da Defesa, das Forças Armadas, das Forças de Segurança, dos Serviços de Informações, da Justiça, enfim, de toda a parafernália que enforma o tão decantado “estado de direito democrático” – andarem à deriva e não terem a mais pálida ideia do que se passou e como se passou!
    Existem algumas perguntas óbvias que é necessário fazer, dado o assunto ter caído na praça pública. E a primeira é já esta: porque é que o evento, dada a sua delicadeza, caíu no domínio público (que se saiba o furto não foi descoberto por nenhum jornalista…)?
    A que se deve seguir a questão de se saber quando foi feita a última inspecção aos paios?
    Quem tinha acesso aos mesmos? O que é que lá havia efectivamente (desculpem, mas depois de tudo o que já foi dito, tenho dúvidas se alguém sabe a lista do material lá existente)?
    Como é que este tipo de informação foi parar às mãos de hipotéticos bandidos?
    Como é que os paióis foram violados e quando (e o “quando” pode ser diferentes vezes…)?
    Finalmente é necessário saber (a quem investiga o caso, obviamente) que relatórios foram feitos ao longo do tempo, a fim de avaliar os verdadeiros responsáveis em todo este âmbito.
    Também seria curioso descortinar quem fez a fuga de informação para o jornal “El Espanol”, que revelou a lista do material roubado, ou furtado (vejam bem onde chega a discussão!), complementada com um artigo arrasador do correspondente, em Lisboa, do Jornal “El País”, e que nos expõe ao ridículo!
    E é caso para perguntar, se a notícia é falsa porque não se levanta um processo ao jornal?
    Pelo meio desta surrealista situação apareceram umas almas penadas, cheias de teias de aranha, a arengar que tudo não passou de um “golpe da Direita” – como se houvesse alguma “Direita” - para prejudicar o Governo. Não há pachorra!
    Tudo piorou, porém, com o regresso do Primeiro – Ministro do remanso das suas férias, quando à revelia do que se tinha dito até então, tudo foi desvalorizado; deixando o roubo de ser grave, tão pouco perigoso sendo, afinal, todo o mundo competente, não havendo lugar a demissões!
    E até os dois generais que se demitiram por não concordarem com tanta pouca vergonha estavam era ressabiados (como puseram a correr…)[1]
    Resta apenas saber se os cinco comandantes que foram “exonerados provisoriamente”, irão passar a “definitivamente”, ou não!
    Num passe de mágica o assunto morria ali, ao mesmo tempo que se passava um atestado de menoridade mental à generalidade da população.
    Soube-se entretanto, que o CEME, numa manobra táctica inspirada provavelmente no “emprego de armas de tiro tenso no ataque aos pontos de cota mais alta”, já não quer os paióis de Tancos para nada, andando afanosamente à procura de alternativa.
    Logo agora que o senhor ministro, na sua cândida magnanimidade, tinha aberto os cordões à bolsa e mandado reparar a rede e o sistema de videovigilância. Não se faz!
    Para o cenário da Ópera (Bufa) ficar completo o PM e o MDN atiraram com o sorridente CEMGFA para a frente dos microfones (que, supostamente representava, no momento, todos os militares), ficando eles atrás do dito, com ar de quem estava a levar um clister – que momento de glória, senhor general! – para finalmente nos elucidar e para nosso descanso, que afinal a maioria do material desaparecido estava para ser abatido e só valia 34.000 euros! (esquecendo-se convenientemente de dizer que o material obsoleto não deixa de ser perigoso e que o grave de tudo tenha sido a violação dos Paióis…).
    Sem embargo confessou ter levado um “murro no estomago”, o que apesar se ser uma expressão infelizmente apenas metafórica, lhe deve ter afectado o raciocino e as vertebras da coluna.
    Murro, que não alterou a boa disposição para a sardinhada que mandou preparar no dia seguinte, em S. Julião da Barra, para os seus colaboradores mais próximos.
    Melhor senso teve o pessoal da Antiga Escola Prática de Engenharia que cancelou as cerimónias anuais do dia da Arma, a 14 de Julho, devido aos tristíssimos eventos ocorridos e ao ambiente de cortar à faca que se vive.
    A Instituição Militar está de facto, em queda livre…
    A performance do CEMGFA não deixa de representar, todavia, um grande “sacrifício pela Pátria”, o que não deixará seguramente de ser recompensado no próximo dia 10 de Junho com a atribuição pelo PR da republicaníssima “Ordem da Tristíssima Figura”, grau latão, arrematando-se a coisa, no fim, com uma “selfie”.
    Se o CEME tem sido “brilhante” na sua actuação, o CEMGFA consegue superá-lo. Compreende-se, é um superior hierárquico!
    Os professores/instrutores que ensinam “Comando e Liderança” aos cadetes e oficiais, já têm aqui exemplos a apontar.
    Daquilo que se não deve fazer.


                                                      João José Brandão Ferreira
                                                          Oficial Piloto Aviador


[1] Eu ainda me lembro que a pior alcunha que se podia pôr a um cadete da Academia Militar ou da Escola Naval era o de “sabujo”. Infra sabujo.